quinta-feira, 19 de novembro de 2009

.:: Do mesmo jeito ::.

Saí do estágio mais cedo, parei em uma pracinha próxima e acendi um cigarro. Tarde agradável, clima nublado, ótimo lucky strike e Beirut nos fones de ouvido. Em meio a minha distração, notei um grupo de senhoras que fazia caminhada pela praça. Ao passarem perto do banco onde eu estava, todas elas fizeram uma cara de reprovação por conta do cigarro entre meus dedos e a fumaça que exalava da minha boca.

***

Eu tinha por volta de uns 12 anos, morava em uma cidadezinha do interior. Era gordo, nerd, desajeitado, 4 olhos, esquesito, enfim, o de sempre. Mas foi nessa época que o conheci. Meu melhor amigo.


Alex era o contrário de mim. Fazia sucesso com todas as menininhas, com os professores, era simpático, conversador, agradável. Apesar de ser o centro das atenções, não ligava pra isso, não era arrogante, nem tinha o ego nas alturas, pelo contrário, era o cara mais legal do mundo. Não era um atleta exímio, mas não passava vergonha como eu passava na educação física.


Apesar de nossas diferenças, foi amizade à primeira conversa. Alex assim como eu, tinha um gameboy e um gosto pela criação de pokemons que até então eu não fazia idéia que existia. Andar com Alex me fazia melhor do que realmente era. Antecipava em décadas o jeito descolado de se vestir e o jeito solto de falar sobre tudo.


Em poucas semanas era meu melhor amigo, único amigo. Passávamos boa parte do tempo discutindo sobre vídeo-games. Lembro que na época emprestava meus jogos de playstation pra ele, coisa que nunca havia feito na vida. Mas é que eu sabia que seu gosto pelos jogos era igual ou maior que o meu. E nunca me decepcionei, os jogos voltavam sempre intactos, sem nenhum arranhão no CD.


Não consigo me recordar de nenhuma briga. Porque elas não existiram. Éramos ótimos amigos, meu melhor amigo. O tipo de Cara que iria ser meu padrinho de casamento mesmo que o destino tratasse de nos trilhar caminhos opostos. Meu melhor amigo.


Em novembro, ele anunciou que faria uma viagem rápida à Brasília. Sua mãe estava de viagem marcada e ele aproveitaria para comprar o nosso tão sonhado “Cabo Link”. Pra que não sabe, “Cabo Link” é uma espécie de Cabo USB da época, específico para GameBoy.


Estremeci de felicidade, com esse cabo poderíamos treinar diferentes tipos de pokemons, obter novos itens, e outras bobagens que haviam no jogo. Alex morreu 3 dias depois.


Enquanto jogava futebol com os primos pelas ruas de Brasília. Foi atropelado por um cara de bicicleta que vinha em alta velocidade. Alex caiu e bateu com a cabeça na quina do meio fio. Ficou 3 dias em coma e morreu.


Culpei o meio fio, culpei as ruas de Brasília, culpei a viagem, culpei o Cabo Link, culpei a bicicleta, culpei Novembro que por fim esqueci de chorar.


Alguns dias depois saímos da escola na hora do intervalo e fomos em procissão pelas ruas da cidade para sua missa de 7º dia. A escola toda estava presente, Alex era mais popular do que eu imaginava.


A igreja estava lotada, morte em cidadezinha do interior é espetáculo, todo mundo se aglomera para assistir a dor dos parentes. Muita gente chorava, em sua maioria, todas as meninas do colégio.


Eu não entrei na igreja, permaneci longe, bem longe, sentado em um banco do outro lado da praça. Permaneci indiferente, distante. Alguns colegas de aula me olhavam torto pela distância e pela frieza. Afinal de contas, era meu melhor amigo, ali, morto. Permaneci calado.

***

Desconfiei de Deus aos 12 anos. Alex estava morto e pra mim, Deus morreu no mesmo dia também. Prometi que só choraria depois que ele me desse uma explicação do por que daquilo tudo. A explicação nunca veio, as lágrimas também não. Meu melhor amigo.


Cigarro, bebedeira, diabetes, motoqueiro vidaloka. Não importa o tipo de vida que eu leve, ninguém vive pra sempre, as pessoas morrem com ou sem o consentimento da saudade. Viver pra sempre é egoísmo, tudo aquilo que é imortal não possui passado; promete o presente e adia o futuro.


Novembro

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

.:: Quando passar ::.

Essa noite sonhei contigo. Sonho estranho, contido, esquisito. Deduzi que pela preocupação do coração sua falta deixou de ser segredo. Acordei no meio da noite; meio triste, meio feliz. Notei que abraçava o travesseiro, abraço forte, de despedida, com respiração apressada.

Meu pessimismo já me dizia que por mais que eu tentasse nada no mundo me faria voltar para aquele sonho. Levantei meio tonto de sono, “trupicando” pelo quarto. Precisava sair, precisava de ar. Descabelado e só de cueca fui pra porta de casa. Precisava de um cigarro.

Enquanto a fumaça preenchia meus olhos, comecei a me questionar: “por que diabos isso agora?”, “porque diabos sonhar contigo depois de tanto tempo”?. Foi então que percebi que as brigas começaram nessa época do ano. E se já haviam começado, agravaram-se pelos idos de novembro. Por Deus, odeio novembro.

No segundo cigarro eu já sabia, nos separamos nessa época. E imaginar o que poderia ter sido completava minha madrugada de sorrisos. “imagina só, a gente comemorando 1 ano juntos”, “imagina nossa vida a dois”. As brigas, os desencontros, as conversas, os planos.

No sonho, te perdia por entre os pátios. E o que mais marcou foi teu silêncio, um silêncio demorado.

Feliz novembro.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

.:: Filmes de Guerra ::.

Meus cigarros, teus olhos.

Permanecemos ausência entre os mesmos jardins, entre as mesmas praças

São muros que o tempo não cura.

Meus cigarros, teus olhos. Duvidamos do vazio dos verbos, mesmo que se comportem como um todo verdadeiro.

Faço distância dos meus telhados, dos meus vazios. Falo das razões de despedidas que celebram toda e qualquer prosa em mim. Dos Meus cigarros, dos teus olhos.

E que o que não exista possa ajudar também, e que toda essa calma deixe de ser madrugada inconseqüente.

O cigarro não está nos filtros nem nos pulmões, mas na tristeza da falta; já os teus olhos, bem, esses ainda me doem.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

.:: Álbum de figurinhas ::.

O medo de ir embora dependia do anonimato da rua. Patrícia era metade daquele silêncio, foi metade daquele olfato. Metade daquele beijo que não conheceu o gosto de “primeira vez”.

Ainda que distante dos olhos da saudade; suas palavras traziam de volta o som que ficou no varal.

Patrícia era fria, Eva, erva. 20 e poucos anos de atenção descabida traduzidas em viva-voz. Patrícia era o próprio cansaço da platéia, jamais perdoava o refrão do que não entendia. Era fria, calma, adulta

Acreditava que o mar sempre foi cego, esquecido pela solidão dos bolsos. Acreditava que nenhuma briga deveria ter passado, que nenhum amor dependia de testemunhas. Não largava o gosto para não esquecer os detalhes.

Não dependia de bairro, cidade ou vizinhança. Suas notas significavam diário que nunca escreveu, era brilhante em tudo o que o coração desaprendia. Só não aprendeu, talvez, a sorrir.

Sua tristeza disciplinava o esforço em contemplar o vazio, era lacuna que respeitava a distância, uma página em branco esquecida pelas ilustrações.

Patrícia era véspera de sol, degrau bobo de estantes repetidas. Sotaque de inverno em letrinhas de jornal.


“Quase todos ali dentro tinham a nítida sensação de que seriam infelizes para sempre.”

E foram.

Caio F.

domingo, 1 de novembro de 2009

.:: eu também ::.

Não adianta chegar mais cedo ou alternar horários.

Não adianta cansar a pálpebra antes da cama.

Toda manhã de Quarta-feira é amor ressentido.


Espalha fuga pela casa na esperança de tempo cinza.

Não adianta acordar armários ou assinar cartas com cabides vazios.

Ver desenho sozinho não deixa lembrança.


Não interessa sotaque ou planeta, não interessa passado ou mentira, verde ou azul.

A alma aberta reveste a fala de passado e sintonia.

O que passamos imita, contempla. Desenha teatro sem necessidade de platéia, inventa sabor que não existiu. Encanta pela palavra adormecendo a forma.

Descansa a procura e apressa a calma.


Tu sempre foi meu Outubro favorito.

Tumultuava minhas manhãs em ritmo de maracujá com açúcar.

Não adianta bom-dia acompanhado de descaso

Não adianta Danoninho sem alguém pra dividir.


Meu jeito desaba.

Minha voz não é letra.

Toda Quarta é desistência do fim

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quinta-feira, 29 de outubro de 2009

.:: Fotos de Satélite ::.

A turma não é minha, nunca foi. Dispenso a formatura,recuso viagens e congressos, não participo, foto em grupo é desvio de septo. Não deixo assinarem o gesso do meu braço, qualquer recordação da escola pra mim é papel higiênico alternativo.


Formatura não significa nada, a turma não é minha, nunca foi. Nem minha gravata do Mickey me deixaram usar.


O descaso também está nos detalhes, participar de uma festa de colação de grau não compensa o banho. Desconfio de todo evento onde não seja permitido ir de chinelo.


- “Mas a formatura é algo único, marcante, corrosivo” – Foda-se, mijo também é, e nem por isso eu curto.


5 anos na mesma sala de aula, 5 anos com o mesmo pessoal e de nenhum churrasco eu participei. A Tuma não é minha, nunca foi. O dinheiro que esse pessoal vai gastar nessa festa boba é um absurdo.


Meu dinheiro é sagrado, tem que ser bem aplicado e já tem destino certo; vou gastar com prostitutas.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

.:: Deixa Fudê ::.

Devo ser mesmo idiota, só pode. Do tipo, teimoso, crítico e meio estúpido. Precisei de cigarros, duas e pouco da matina, e honestamente, pagar 5 pila em uma carteira vagabunda numa lojinha de conveniência não é pra mim. O jeito foi apelar pra um supermercado 24 horas, mesmo que pra isso precisasse atravessar a cidade.

Chegando ao destino encontrei a cena clássica: Playboyzada reunida – apesar da placa em frente ao supermercado ser nítida “proibido animais”, pois bem, todo mundo com o carro do papai e é claro, porta-malas aberto com som nas alturas. Até ai tudo bem, se não fosse, é claro, o tipo de música e as atitudes.

Axezão tocando sem dó nem piedade, a galera rebolando e imitando algum tipo girafa no cio. Mulherada até que vai, nada contra, afinal é só um pedaço de carne que alguém vai “comer” no final da noite, mas ver playsson com nipe de dançarino de axé rebolando é algo essencialmente asqueroso. Não adianta, meu estômago não agüenta.

E acho que o pior de tudo isso é que esse tipo de música faz sucesso. Qualquer idiota como eu ou você pode se dar bem. Se a Carla Perez conseguiu, paciência...... - Isso é falta de “iscola!” – Pensei comigo.

Nada que um bom decote ou pernas de fora não ajudem. Ninguém precisa de “estudo” hoje em dia. E alguns ainda tentam ser intelectuais e se arriscam lendo coisas como Harry Porco e Crepúsculo. Isso porque alguns cientistas Norte-americanos comprovaram que alguns Orangotangos das ilhas de Sumatra leram tais títulos e nem eles gostaram.

Segui meu rumo, passando pela seção de laticínio: “Vamulá galeeeera!”, “Tira o pé do xaummm”, “chicletêeeeeeeeeeeee, oba oba”.

Meu pai já dizia que não sei fazer nada direito, ele deve ter razão, devo mesmo pertencer a outra espécie de mamíferos, sei lá. Entender esse pessoal é como tentar estuprar o Zé colméia, não faz sentido.