Saí do estágio mais cedo, parei em uma pracinha próxima e acendi um cigarro. Tarde agradável, clima nublado, ótimo lucky strike e Beirut nos fones de ouvido. Em meio a minha distração, notei um grupo de senhoras que fazia caminhada pela praça. Ao passarem perto do banco onde eu estava, todas elas fizeram uma cara de reprovação por conta do cigarro entre meus dedos e a fumaça que exalava da minha boca.
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Eu tinha por volta de uns 12 anos, morava em uma cidadezinha do interior. Era gordo, nerd, desajeitado, 4 olhos, esquesito, enfim, o de sempre. Mas foi nessa época que o conheci. Meu melhor amigo.
Alex era o contrário de mim. Fazia sucesso com todas as menininhas, com os professores, era simpático, conversador, agradável. Apesar de ser o centro das atenções, não ligava pra isso, não era arrogante, nem tinha o ego nas alturas, pelo contrário, era o cara mais legal do mundo. Não era um atleta exímio, mas não passava vergonha como eu passava na educação física.
Apesar de nossas diferenças, foi amizade à primeira conversa. Alex assim como eu, tinha um gameboy e um gosto pela criação de pokemons que até então eu não fazia idéia que existia. Andar com Alex me fazia melhor do que realmente era. Antecipava em décadas o jeito descolado de se vestir e o jeito solto de falar sobre tudo.
Em poucas semanas era meu melhor amigo, único amigo. Passávamos boa parte do tempo discutindo sobre vídeo-games. Lembro que na época emprestava meus jogos de playstation pra ele, coisa que nunca havia feito na vida. Mas é que eu sabia que seu gosto pelos jogos era igual ou maior que o meu. E nunca me decepcionei, os jogos voltavam sempre intactos, sem nenhum arranhão no CD.
Não consigo me recordar de nenhuma briga. Porque elas não existiram. Éramos ótimos amigos, meu melhor amigo. O tipo de Cara que iria ser meu padrinho de casamento mesmo que o destino tratasse de nos trilhar caminhos opostos. Meu melhor amigo.
Em novembro, ele anunciou que faria uma viagem rápida à Brasília. Sua mãe estava de viagem marcada e ele aproveitaria para comprar o nosso tão sonhado “Cabo Link”. Pra que não sabe, “Cabo Link” é uma espécie de Cabo USB da época, específico para GameBoy.
Estremeci de felicidade, com esse cabo poderíamos treinar diferentes tipos de pokemons, obter novos itens, e outras bobagens que haviam no jogo. Alex morreu 3 dias depois.
Enquanto jogava futebol com os primos pelas ruas de Brasília. Foi atropelado por um cara de bicicleta que vinha em alta velocidade. Alex caiu e bateu com a cabeça na quina do meio fio. Ficou 3 dias em coma e morreu.
Culpei o meio fio, culpei as ruas de Brasília, culpei a viagem, culpei o Cabo Link, culpei a bicicleta, culpei Novembro que por fim esqueci de chorar.
Alguns dias depois saímos da escola na hora do intervalo e fomos em procissão pelas ruas da cidade para sua missa de 7º dia. A escola toda estava presente, Alex era mais popular do que eu imaginava.
A igreja estava lotada, morte em cidadezinha do interior é espetáculo, todo mundo se aglomera para assistir a dor dos parentes. Muita gente chorava, em sua maioria, todas as meninas do colégio.
Eu não entrei na igreja, permaneci longe, bem longe, sentado em um banco do outro lado da praça. Permaneci indiferente, distante. Alguns colegas de aula me olhavam torto pela distância e pela frieza. Afinal de contas, era meu melhor amigo, ali, morto. Permaneci calado.
***
Desconfiei de Deus aos 12 anos. Alex estava morto e pra mim, Deus morreu no mesmo dia também. Prometi que só choraria depois que ele me desse uma explicação do por que daquilo tudo. A explicação nunca veio, as lágrimas também não. Meu melhor amigo.
Cigarro, bebedeira, diabetes, motoqueiro vidaloka. Não importa o tipo de vida que eu leve, ninguém vive pra sempre, as pessoas morrem com ou sem o consentimento da saudade. Viver pra sempre é egoísmo, tudo aquilo que é imortal não possui passado; promete o presente e adia o futuro.
Novembro
